Caminhos de Santiago

Notas de reportagem de uma caminhada pelo interior das terras galegas... Sarria-Santiago de Compostela: 111 quilómetros, Setembro de 2004

08 agosto 2006

"Santerreando"

(...) “Não me sinto capaz de conservar a saúde e o bom estado de espírito se não passo pelo menos quatro horas por dia “santerreando” através das florestas e por cima de morros e campos, absolutamente livre de qualquer compromisso mundano”. Lembramo-nos desse selvagem Thoreau, quando descreve as suas deambulações pela região do Lago Walden, nos Estados Unidos do século XIX. Para “selvagens” como Thoreau, andar pode ser uma necessidade espiritual extremamente forte. E raiar até a patologia, como no caso do senhor Sommer, protagonista de um livrinho de Patrick Suskind, que calcorreava a região durante o dia inteiro porque era incapaz de ficar quieto e fechado entre quatro paredes…

Já fomos nómadas por necessidade, e parece ter permanecido algo disso ao longo dos milénios. Se o acto de caminhar é para os cristãos um acto de purificação, certo é que ele está presente em qualquer religião. Jerusalém e Meca são outras dessas terras sagradas, destinos de longas peregrinações, e desde a antiga Babilónia que há registos de deslocações de massas. No hinduísmo, kshatrya é a casta dos guerreiros, mas também daqueles que partem em peregrinação, numa missão.

Kinhin é, para os budistas, o acto de “caminhar em meditação”. “Além do mais, é preciso que caminhe como um camelo, que dizem ser o único animal que rumina enquanto anda”, aconselha Thoreau no ensaio “Caminhando”, publicado logo após a morte do escritor norte-americano, em 1862. O ritmo engana o cansaço. O silêncio impõe-se, apenas entrecortado pela saudação dos outros peregrinos, a senha desta vasta família de desconhecidos. “Buen camino!”. (...)